MAD MAX: ESTRADA EM FÚRIA por Master Blaster (Leo Veloso)

MAD MAX: ESTRADA EM FÚRIA por Master Blaster (Leo Veloso)

“Eu me lembro de um tempo de caos… nessa terra devastada… mas acima de tudo… eu me lembro do Guerreiro das Estradas… um cabra da peste chamado Max…”

 

11257634_1834593706766623_804094556_nVi o segundo filme da trilogia original quando era apenas um pivete sem pelo no saco. Lembro até hoje que ele e Blade Runner foram os dois primeiros filmes que me assustaram para valer. Não sei bem por quê, mas aquele mundo bizarro me incomodava e me deixava tenso. Eu sabia nada sobre aquecimento global; eploração econômica; crise estrutural do sistema; domínio de algumas regiões do mundo por senhores da guerra, os quais lutam com outros senhores da guerra por territórios e recursos – como acontece nas favelas brasileiras, nas periferias russas, na desolada Somália ou no Iraque destruído. Mas mesmo sem conhecer essas coisas, algo naquele filme e naquele cara com máscara de Jason – que hoje eu sei se chamar Lord Humungus – me perturbava para valer, pois parecia que poderia ser real.

Passaram-se muitos e muitos anos e hoje eu sou fã da trilogia original (não muito do terceiro filme na verdade), e estava ansioso para ver o que George Miller iria fazer com essa nova empreitada na Terra Devastada. E estava ansioso, entre outras razões, porque aquele deserto sem esperanças nunca pareceu tão próximo e tangível. E eu posso dizer que a loucura transmitida em tela nunca foi tão louca e bizarra. Na verdade, se não fosse pelo nome “Mad Max”, duvido que um estúdio de cinema se permitiria gastar 150 milhões de dólares numa coisa tão chocante.

Já houve outros filmes apocalípticos, mas nada tão xarope quanto esse. E eu tenho certeza que se não fosse pelo nome que carrega, o filme pouco sucesso faria entre os norte americanos (como pouco sucesso fizeram os dois primeiros filmes), povo o qual imagina ser o otimismo uma obrigação moral e que vê qualquer tipo de melancolia ou depressão como subversão, como coisa de perdedores ou socialistas que não sabem ver as maravilhas do livre empreendedorismo. Quem conhece como as coisas funcionam nos EUA, sabe que o puritanismo evangélico e a obrigação moral, própria de uma cultura corporativa de escritório, de ser pró-ativo e entusiasmado chegam às raias da loucura – e é interessante observar que o filme Uma Aventura Lego alopra com esse aspecto da cultura norte americana. E não nego que otimismo demais é algo que me incomoda muito, prefiro coisas mais melancólicas, como Constantine, o mais depressivo e auto-destrutivo personagem das HQs.

Contudo, George Miller é australiano e não se importa em jogar na nossa cara toneladas de pessimismo bizarro. Como ex-médico, ele atendeu e se impressionou com centenas de feridos de acidentes de trânsito, o que alguns chamam de a guerra invisível sem tréguas. Isso o fez criar o mundo dos motoristas do apocalipse, os quais lutam desesperada e sujamente por gotas de gasolina.

Em Mad Max, Estrada em Fúria, nós vemos isso transmitido à perfeição pelo diretor. Gotas de gasolina, gotas de sangue, gotas de água, úteros, leite materno… qualquer coisa que possa ser trocada e sirva para dar poder a quem a possui é disputada tapa a tapa, bala a bala. É o estado de natureza de Hobbes elevado à enésima potência. É o homem tiranossauro do homem. É o mundo pós-capitalista que Robert Kurz já via se desenhando em nosso horizonte futuro, quando em 20 anos, 2/3 da humanidade sofrerá com falta de água e no qual provavelmente os 20% de petróleo que restou debaixo da terra será totalmente gasto. Ou, melhor ainda, no horizonte futuro de quem ainda tem a sorte de fazer parte da classe média, pois já é o presente para a esmagadora maioria da humanidade. Nós, que vamos ver esse filme nos cinemas, não imaginamos que uns 70% da raça humana já vive o Mad Max, seja sendo dominados por senhores da guerra em lugares como o Afeganistão, seja precisando lutar pela própria sobrevivência por meio de subempregos, informalidade, violência, etc. Como dizem por aí, o rico pode planejar a vida, a classe média pode planejar o ano, o pobre pobre planejar o mês e o miserável pode planejar o dia. E uns 70% só se podem dar ao luxo de planejar o dia num mundo no qual a própria Organização Internacional do Trabalho já diz que 2/3 da humanidade economicamente ativa já é supérflua ao sistema econômico. A Terra Devastada não é tão ficcional quanto possa parecer…

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Senhores da guerra existem desde que francos, romanos e godos se agrupavam em torno de um general que pudesse lhes distribuir o butim da guerra durante a queda do Império Romano. Durante a Renascença eles ficaram conhecidos como “Condottiere” e hoje são conhecidos como traficantes ou até mesmo empresários (rs). O mundo de Mad Max sempre foi dominado por Warlords. Lord Humungus talvez seja o senhor da guerra mais famoso do cinema. Aqui em Estrada em Fúria temos Immortan Joe, cujo papel é interpretado pelo mesmo ator que fez o Toecutter do filme original. Joe não é apenas um senhor da guerra, é também um líder religioso – não que isso seja novidade. Ele domina a seita dos Meninos da Guerra. Baseada na ideia de Valhalla ou até nos homens bomba, eles se matam enquanto gritam “Eu vivo, eu morro. Eu vivo novamente!!” e balançam seus volantes para lá e para cá. E isso não é de se estranhar, pois, nesse mundo desértico cheio de maníacos, só com um automóvel para se poder sobreviver. Enquanto o mundo desmorona, todos ficam loucos e só a sobrevivência importa. Nem que seja numa outra vida. Quando o desespero bate, os pastores waldomiros se aproveitam…

No filme original, Max Rockatansky era um policial, o qual servia o que havia sobrado do Estado e da Lei. Mas, onde as estruturas estatais desmoroam ou não alcançam, os policiais entram no jogo do butim e da sobrevivência. E com Max não é diferente. Sequestrado no começo de Estrada em Fúria, ele parece não se importar com mais nada a não ser com manter sua própria existência. A autoconservação é o princípio que guia a sua vida, sendo, dessa forma, reduzido a menos do que um animal, pois animais também são capazes de sacrificar a própria existência em prol de outros.

A General Furiosa completa a tríade de protagonistas. Ela é uma personagem muito boa e bem interpretada. Girl Power. Mas, ao contrário das outras girl powers do cinema, não grita coisas como “no seu rabo, vadia” ou faz alguma piada depois de brigar ou sair de uma situação ameaçadora enquanto balança a cabeça como uma “sister”. Não. Ela só faz suas coisas como uma pessoa vivendo no apocalípse. Não fala muito, como quase todos os personagens desse filme. Afinal, num mundo reduzido ao pó, as palavras se tornam poucas e grosseiras. Furiosa não precisa fazer pose de personagem clichê de anime para mostrar que é uma exímia guerreira e sobrevivente. Ela consegue transmitir tudo o que é necessário ser transmitido só com o olhar.

Immortan Joe, General Furiosa, Papagallo, Esposa Esplêndida, Rictus Erectus (“interpretado” pelo gigantesco Nathan Jones), Lord Humungus, Toecutter, N:ightRider, Master Blaster, Bubba Zanetti, … a criatividade de Miller para nomes de personagens é gigantesca.

O roteiro do filme é simples, porém profundo. Cada coisa é feita para que você se sinta imerso no bizarro, que estrutura o mundo apresentado na tela. Nada é fora do lugar ou sem propósito. Roteiro simples não é sinônimo de roteiro raso ou que precise apelar para coisas como riso fácil ou momentos “CARALHO!!!”

É claro que Mad Max tem seus momentos CARALHO!!!, mas não são necessários para segurar o espectador. E esses momentos são apresentados durante as perseguições de automóveis. Como no segundo filme, elas são maravilhosas. Bem filmadas, bem feitas. De olhar para a série de filmes “Rápidos e Putos” e dizer “que merda…alguém mata essse careca, por favor…”

Outro ponto a se destacar no filme é a questão da imensidão do nada que cerca os personagens. Quando uma das noivas de Joe grita “We are not things!!”, é possível entendê-la dizendo “We are nothing!!”. Quanto maior descobrimos ser o universo, mais insignificantes nos sentimos em relação ao mundo. Foi o que aconteceu quando o ser humano descobriu que a Terra, sua morada, não era o centro de coisa alguma. Eu tenho uma hipótese acerca da nossa fixação em relação ao Facebook. O mundo das redes sociais é pequeno e fechado para nós. Ele praticamente se resume a nossos contatos e suas atualizações. Sendo pequena essa realidade, ela permite que nos esqueçamos do quanto se é insignificante perante a imensidão do mundo. Em Mad Max, os personagens não podem se esquivar de encarar algo gigantesco e, o pior de tudo, homogêneo, sempre igual, o deserto. Tentam se fechar sem seus grupos e seitas de aves de rapina, mas a realidade da terra devastada sempre estará lá. Sempre igual, sempre desesperadora.

Se você é fã de Mad Max, pode ver que vai gostar. Não é um simples remake. É o que Miller teria feito na década de 80 se tivesse a tecnologia e o orçamento disponíveis hoje em dia. É o tipo de filme que faz o espectador nerd pensar “esse cara é contratado da Warner. O que falta para ele dirigir um filme da DC ou Vertigo??”

Numa escala de 1 a 10, esse filme vale 11.

E não se esqueçam que a Vertigo está lançando Hqs as quais contam o que aconteceu antes do filme.

  • Clemilda -Talco no salão

    Tenho certeza que o filme é uma merda

    Remakes sempre são ruins

  • Matheus Miranda

    Cara, excelente texto. Parabéns. E realmente, o filme é excelente.

  • Lorenzo Lamas Loucão

    Sim.

    O único Mad Max que estourou nos EUA foi o terceiro, que é mais “fofinho”, otimista, com aquelas crianças escrotas.

    Os dois primeiros afundaram

  • Lorenzo Lamas Loucão

    E PENSAR QUE ERA PARA ESSE FDP TER DIRIGIDO O FILME DA LIGA DA JUSTIÇA EM 2008

    PORRA, WARNER!!!

    CHAMA O CARA DE VOLTA!!

  • Lorenzo Lamas Loucão

    E o Max queria ajudar os outros, mas se tornou um ser fechado em si e preocupado com a sobrevivência depois de levar muito na cabeça, depois de se foder demais.

    E a Furiosa é foda, sem mais

    • The People Eater

      No filme também tem uma crítica fodida às corporações.

      O melhor é o cara que fica pesando os custos da operação do Imortan Joe

    • Mestre da Terra Devastada

      O filme é lotado, LOTADO de críticas sociais. Acqua Cola. Morrer e comer numa mesa de McDonalds. Tinha o contador de empresa que ficava pesando custos e benefícios da operação do Joe. Terra Devastada, sem saída. TODOS contaminados por radiação e obrigados a escolher entre morrer na estrada da fúria ou aos poucos por conta do câncer. (lembra do grito de FUKUSHIMA no comecinho?). Terra Devastada, sem saída, terra de “quem matou o mundo”. Não quero dar spoilers, mas queria muito falar do final e o quanto ele é bom.
      Por isso aviso que agora terão spoilers
      …..
      ….

      ……
      As sementes que a menina leva para a Cidadela representam a esperança. Mas é uma esperança vã, como o próprio Max diz, pois toda aquela cidade está condenada. Conseguiram abrir as comportas de água. Legal. Mas água não pode curá-los agora. Já mataram o mundo. E quem derruba o ditador no final “sobe”. As estruturas sociais naquele micro cosmos continuam as mesmas. E quem viu a verdade do Deserto vai embora no final. Tem muita coisa ali, só observar…

  • The People Eater

    TESTEMUNHEM!!

    TESTEMUNHEM!!!!

    • Lorenzo Lamas Loucão

      TESTEMUNHE SACO DE SANGUE

      TESTEMUNHEEEE!!!

      EU VIVO.

      EU MORRO
      EU VIVO DE NOVO!!!!

      • The People Eater

        QUEM MATOU O MUNDO, FILHO DA PUTA????

        • Lorenzo Lamas Loucão

          QUEM MATOU O MUNDO?

          QUEM MATOU A FAMÍLIA DO MAX?

          FOI O TOECUTTER QUE É O IMMORTAN JOE

          • Rike Deodato

            MAS O QUE??????

  • Clemilda -Talco no salão

    Na verdade, o Miller IA dirigir um filme da Liga em 2007

    http://www.macacomalandro.com.br/2013/10/liga-da-justica.html

    O roteiro está até na net para ser lido

  • Clemilda -Talco no salão

    Sinceramente?

    Vou esperar essa bsota de Mad Max sair em DVD ou cair na net

    Não dá para confiar em crítica de site que paga pau para Age of Ultron

  • Liefeld Cyberman

    Ser indivíduo no Brasil é mais problemático, frustrâneo, do que em outros países, menos desenvolvidos inclusive. Não é uma questão de pujança econômica, social, como pensavam os desenvolvimentistas dos anos 70, que quando o país desenvolve isso vai junto. Não vai junto. Existe um descontentamento de base com ser apenas um indivíduo. Estávamos falando das redes sociais e é um caso exemplar. Não consigo ser só mais um em uma curtida que tem 15, 20 pessoas, tenho um problema em ser só mais um. Tem um tipo de diferença baseado na pessoa, um fetiche na celebridade, naquele que se diferencia não por ser um como qualquer outro que trabalhou mais, que tem dotes melhores, mas se diferencia por um “xis” a mais, um truque, uma mágica, que fico procurando para descobrir qual é. Isso vai levar ao fato de que na minha relação com as instituições nunca vou largar a ilusão de ser uma exceção, quero a porta social, não a dos funcionários.

  • Mestre da Terra Devastada

    O filme é lotado, LOTADO de críticas sociais. Acqua Cola. Morrer e comer numa mesa de McDonalds. Tinha o contador de empresa que ficava pesando custos e benefícios da operação do Joe. Terra Devastada, sem saída. TODOS contaminados por radiação e obrigados a escolher entre morrer na estrada da fúria ou aos poucos por conta do câncer. (lembra do grito de FUKUSHIMA no comecinho?). Terra Devastada, sem saída, terra de “quem matou o mundo”. Não quero dar spoilers, mas queria muito falar do final e o quanto ele é bom.
    Por isso aviso que agora terão spoilers
    …..
    ….

    ……
    As sementes que a menina leva para a Cidadela representam a esperança. Mas é uma esperança vã, como o próprio Max diz, pois toda aquela cidade está condenada. Conseguiram abrir as comportas de água. Legal. Mas água não pode curá-los agora. Já mataram o mundo. E quem derruba o ditador no final “sobe”. As estruturas sociais naquele micro cosmos continuam as mesmas. E quem viu a verdade do Deserto vai embora no final. Tem muita coisa ali, só observar

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